sexta-feira, 28 de setembro de 2007

CONSTRUIR OU PARALIZAR?

Construir ou Paralisar? Você decide...

Por Valfrido M. Chaves
Nas fronteiras do Sul, herança de uma época em que os limites da Nação eram traçados e defendidos à patas e lanças da cavalaria, argentinos e brasileiros ainda hoje trocam farpas, através de piadas e chistes . Vamos, pois, a uma “piada de argentino”: - “Você sabe qual é o melhor negócio do mundo? ... Não sabe? É comprar qualquer coisa pelo preço que o argentino diz que o brasileiro vale, e vendê-la por quanto ele próprio acha que vale”.

Humor à parte, este chiste tem por pressuposto a noção de que nossos vizinhos, ao Sul, exibindo uma auto estima exagerada, usariam e abusariam do direito de se engrandecerem. Ao mesmo tempo, fica clara a idéia de que, por lá, não seriamos objeto de maior apreço ou consideração. Sem entrar no mérito da pretensiosa auto estima argentina e de nossa desvalorização embutidas na piada, trago ao leitor algumas reflexões a partir da mesma ...

Do ponto de vista psicológico, todos nós abrigamos um lado “argênteo”, ou seja, “narcísico”, que “se acha”, se expressando através de uma auto estima exagerada, da supervalorização das próprias qualidades e da ausência de autocrítica. Trata-se do lado infantil que conservamos em nossa interioridade, o qual precisa ver-se como o umbigo ou a sétima maravilha do mundo. Por outro lado, coabitando em nossa alma com esse “argentino”, temos em nós outro infante marcado por sentimentos de abandono, insignificância e dor que foram vivenciados, uns mais que outros, em nosso início de vida, nos marcando definitivamente.Tal criança se sente como um ninguém, um “coisa pouca” no mundo. A partir daí, a incapacidade de tolerar o “pouca coisa” nos leva a buscar refúgio e compensação em “bolhas” de grandeza que sabemos criar. Estes personagens, ou momentos, estão em nossa alma como a “cara” e a “coroa” de uma mesma moeda .

Esopo, com sua fábula “A rã e o touro”, nos acompanhará neste passeio para nos introduzir na dialética desses nossos já referidos contrários, o Argênteo e o Coisa Pouca: “Uma pequena Rã, num banhado, viu próximo dela um grande touro, que viera beber água. Sentindo-se apequenada diante do gigantesco intruso, começou a se inflar, e foi inchando, inchando, até... estourar!”. Do mesmo modo, quando a criança vive intensamente o sentimento de desamparo e dor, diante de pais que pouco a admiram e que passam a lhe parecer tão grandiosos quanto a rã via o touro do banhado, ela infla, infla o seu Ego, valorizando, regredindo e se apegando aos momentos fugazes de grandiosidade que tenha experimentado. Com tal apego, que usa como um escudo protetor, fica ela então pronta para trilhar o mundo carregando, em seu alforje psíquico, um pretensioso “bolha” e um deprimido “Coisa Pouca”! Como vê o leitor, o “eu maravilha” é um movimento defensivo, um refugio da alma para fugir às dores proveniente do sentimento de solidão e apequenamento.

Ao longo de nossas jornadas, fazemos com as dores e os incômodos alimentados pelo desalento de nosso “Coisa Pouca”, o mesmo que o aparelho digestivo faz com o que lhe é indigesto: colocamos para fora, vomitamos no outro e, assim o fazendo, ficamos só com o lado reluzente dentro de nós. Não é difícil identificar essa “defesa” contra a dor psíquica : ela está sempre presente nas tentativas de desmerecer, desqualificar e paralisar, no outro, os méritos e possibilidades que não se julga possuir, ou ações que não consegue executar. Seria importante aqui apontar a natureza conservadora do “coisa pouca”. A sua imutabilidade se deve a que, tendo aprendido que só perde quem tem, “passou a evitar o ganho pelo medo da perda”, na expressão do Dr. Azoubel, sobretudo porque após empenhar-se em paralisar e atacar àqueles a quem inveja, teme ser vitima do mesmo tipo de ação e hostilidade. Como diz o mineiro: “quem usa, cuida”!

Mas qual seria o ganho do “Coisa Pouca” em promover a maledicência sobre o outro, ou a paralisação de suas ações criativas ou produtivas? É justamente colocar fora, produzir no próximo a própria impotência, paralisação, mal estar e, ao fazer isso, se sentir parte de uma “militância argêntea” e poderosa. Tendo depositado fora a própria coisapouquice, o “militante” fica só com a “coisagrandiosa” dentro de si. Ou seja, o sentimento de onipotência, poder ilimitado. Esse mecanismo de defesa tem até nome: “projeção” e compensação. Devemos lembrar que tais mecanismos são mais bem executados e facilitados em situação grupal, como fenômeno de massa, como num comício ou participação num partido político ou sua militância.

Uma ilustração do que expomos se dá na Planície Pantaneira, região úmida de clima semi-úmido, onde ocorrem secas intensas, que transformam 17 milhões de hectares de capim seco no maior depósito de combustível sólido, a céu aberto, do planeta. Além do colapso na alimentação do gado, toda a região fica a mercê de incêndios, de um modo geral sem controle, quando atinge maiores dimensões. Diante da adversidade cíclica, graças às pesquisas e experimentação, a comunidade local introduziu gramíneas mais resistentes à seca e mais palatáveis, o que tanto reduz o stress dos rebanhos, quanto a massa combustível que tem alimentado os incêndios. Grupos exóticos ao local, pretendendo estar em “defesa do meio ambiente”, vêem naquela busca de solução, apenas uma agressão à biodiversidade do “santuário do Pantanal”, pouco lhes importando os resultados positivos da prática, tanto para a economia quanto para a qualidade ambiental. Além das criticas, de quando em vez se tenta a proibição legal da substituição de pastagem, selando a imagem de uma cultura reconhecidamente conservacionista, como “impactadora do meio ambiente”. Como se vê, leitor, tais práticas se escondem sob discursos “politicamente corretos” e de cunho pretensamente preservacionistas.

Tudo se passa como se houvesse uma programação ideológica a cumprir, ou seja, levantar suspeição, desmerecer e desqualificar o trabalho produtivo e conservacionista na Planície Pantaneira. No plano psicológico, seria destruir a autoestima do outro, paralisando-o em sua criatividade e produtividade. E ao fazer isso, sentir-se um maravilhoso “defensor do meio ambiente”, com um Ego resplandecente! Fim ao cabo, a motivação dessa prática se deve a que as pessoas com reduzida autoestima e sem produtividade se sintam bem quando conseguem deixar o outro nas suas mesmas condições... Aqueles com tais características são cooptados facilmente por interesses e militâncias, tanto ideológicas quanto geopolíticas, para as atuações perversas já apontadas e das quais resulta, sistematicamente, a desqualificação de quem está conseguindo ser construtivo, produtivo. Essa dinâmica, bem é capaz de identificar o leitor, ocorre em todas as épocas e espaços sociais.

O messianismo é uma das atuações que expressam essa “gangorra” interna em que brincam conosco o nosso “ eu maravilha” e o “eu coisa pouca”. Os líderes messiânicos entram em êxtase anunciando a salvação, um “novo paradigma”, pois assim tornam-se iluminados condutores das massas. Etapa dessa dinâmica, há sempre a denúncia “do mal”, de um inimigo externo, quando então o outro fica depositário do que aqueles redentores vivenciam como ruim dentro de si mesmos. Por outro lado, aqueles com menos talento, mas com o mesmo sentimento de insignificância do “messias”, se realizam na submissão ao líder grandioso ou doutrina salvacionista, se sentindo partícipes da magnitude do líder ou da causa. “Identificação projetiva” é como a Psicanálise nomeia este mecanismo compensatório.

As grandes tragédias do século passado tiveram em seu bojo a dinâmica a que estamos nos referindo: o totalitarismo fascista, em suas versões nazi-fascista e comunista, que trouxeram o Holocausto, os expurgos, os assassinatos em massa, em fim, a crueldade contra a pessoa humana numa expressão massiva tal que se imaginava impossível em nosso estágio civilizatório.

Ambas as ideologias promotoras daquelas ações degradantes que deverão sempre envergonhar nossa espécie e nos servir de advertência, anunciavam “boas novas” para a humanidade. O nazi-fascismo trazia a redenção através da “higiene racial” e da supremacia ariana, com a eliminação das idéias e “raças inferiores”: comunistas, judeus, ciganos, eslavos, etc. Por outro lado, o totalitarismo marxista-leninista anunciava a “boa nova” através da “supressão da sociedade de classes e do Estado” e o que, na prática, seria instrumentalizado pela “ditadura do proletariado”, através do iluminado Partido. Tal como na Terra Prometida, onde nos riachos correria leite e mel, sob o novo regime jorraria abundância e liberdade, com plena “liberação das forças produtivas”.

Os grandes timoneiros daqueles processos massivos de degradação humana foram Hitler, Lênin, Stálin e Mao Tse Tung e, mais recentemente, Pol Pot. Todos, personalidades paranóides, extremamente cruéis, amantes do poder, absolutamente fascinados e aprisionados pelo papel que eles próprios e as massas lhes outorgavam, como “redentores da humanidade” ou “messias prometidos”. Não é por acaso que todos eles se eternizaram no poder: Hitler, Stálin, Mao, Fidel. Todos eles construíram ou adotaram sistemas ideacionais ou ideológicos que viabilizavam e justificavam, pelo menos em suas concepções, a crueldade e o desprezo contra o indivíduo e grupos não sujeitos às suas crenças. Todos esses messias demonstraram possuir Egos frágeis, incapazes de administrar suas pulsões primitivas, as quais liberavam, atendendo ainda suas necessidades narcísicas, quando mandavam milhões de seres humanos para o fornos crematórios, fuzilamentos em massa, expurgos siberianos e “paredon”. E se consideravam, ainda, justamente através dessas ações, mais maravilhosos! As cinzas que saiam das chaminés dos fornos crematórios do holocausto, caiam como lantejoulas sobre o Ego dos executores da carnificina.

Não suportar as contradições da própria alma, tal como o conflito entre ser “coisa pouca” e “ser maravilhoso” é o determinante daqueles que se empenham na eliminação da diversidade e pluralidade em seu ambiente. Por isso a necessidade de verem, ao seu redor, um mundo de “clones”, sem diversidade étnica ou de opinião. O aparato ideológico, seja nazista ou marxista-leninista, apenas agilizaram e justificaram as práticas antidemocráticas e degradantes levadas a efeito, as quais correspondiam a necessidades individuais de seus executores. Se não houvesse aquelas ideologias para os justificarem, eles criariam uma, aliás, como criaram, até para se sentirem acima do bem e do mal, através do “princípio da moral relativa”. Sob o abrigo de tal princípio, não há verdade ou mentira, corrupção ou terrorismo, maldade ou bondade: tudo se reduz a instrumentos justificados pela causa santa, ou condenados se a ela se opõe. Tudo o mais, dizem eles próprios , “é moralismo”.

Espero que o leitor perceba o “mecanismo chave” que apontamos: mandamos o “coisa pouca” para o forno crematório, “paredon” ou Sibéria, eliminamos a divergência e ainda inflamos o “ego-maravilha” dentro de nós. Aí entra o “culto da personalidade” que, estimulando a identificação das massas com o Grande Líder, as tornam dependentes do mesmo, justificando as longas ditaduras que então se estabelecem. É uma simbiose perfeita, engendrada no caldeirão do diabo e que, historicamente só ocorreu nas sociedades em que a autoestima coletiva entrou em colapso, como na Alemanha e Rússia pós Primeira Guerra e na China enxovalhada pela dominação Ocidental e imperialista. Sem colapso da autoestima coletiva não há expectativa messiânica e espaço para tais lideranças e regimes redentores.

A percepção de tais mecanismos, à luz do conhecimento dos fatos históricos, da Ciência Política, da Psicologia Social e da Psicanálise, nos parece de crucial importância neste início de milênio, em nossa sociedade. A evolução dos meios de comunicação de massas e das técnicas de manipulação da opinião pública estão postas à disposição de Partidos Políticos, Ideologias e interesses Geopolíticos contemporâneos atuantes entre nós. Não é difícil identificar suas raízes, heranças e herdeiros, pois o diabo não consegue esconder o rabo e o chifre por muito tempo.
Neste momento, só não vê entre nós quem são os herdeiros ideológicos daqueles que, por quase um século, ensangüentaram e atrasaram meio mundo com seu messianismo redentor, quem não quer ou permitiu-se ser cooptado, assim atendendo às necessidades de inflação do próprio ego.

Em nosso Brasil, “novos arianos” se anunciam com o velho messianismo ideológico fracassado onde quer que tenha se estabelecido, por quase um século, quando produziu assassinatos coletivos, atraso e as mais longas e cruentas ditaduras de que se tem notícia: Franco, Fidel, Stalin, Mão, Hitler. O neo-arianismo brasileiro exibe os mesmos vícios de seus predecessores: o messianismo historicista e a ausência de escrúpulos e respeito à dignidade humana como algo intrínseco à condição humana. Apenas a adesão à causa confere humanidade e dignidade a quem quer que seja. “Sabem” qual é o futuro da História e da humanidade e quem se interpõe à marcha do que preconizam deve ser tratado como “lixo da história” e inimigo da humanidade. Daí, ao “paredon”, são apenas passos. Tais perversões são estribadas no princípio da “moral relativa” segundo a qual é verdadeiro, justo e moral apenas e tudo aquilo que se coaduna com a “práxis” do ”neo-arianismo” brasileiro que, nesta data, está no poder. Essa é a dinâmica, leitor, que embasou o holocausto, os assassinatos em massa, as mais longas ditaduras da história, o Partido único, “o único Partido que tem programa”, “o único que faz mudanças”. Cá entre nós, já embasou o “Mensalão”, o uso partidário dos recursos do FAT e, nos parece, a morte de Celso Daniel, o “dossiê fajuto”, engendrado a metros do centro pessoal do poder, entre a segurança e a churrascaria. Sonham com a detonação da Democracia Burguesa, a qual desprezam, porque aceita a pluralidade e a diferença, até ao ponto de permitir que se conspire contra ela.

E que bom futuro nos aguarde, mercê de nossa lucidez e ações que possamos desenvolver e compartilhar. Que nossa “rãzinha” não tenha necessidade de inchar muito e que possamos nos lembrar que felizes são os povos que não precisam de salvadores messiânicos e nem se disponham a ouvir o canto de sereias redentoras, ultrapassadas e relançadas por “rãzinhas” e “argentinos”. E que Deus nos conserve a autoestima, a pluralidade, as imperfeições e o bom senso.

E o leitor, já fez sua opção entre ...construir e paralisar?

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