sábado, 23 de fevereiro de 2008

UM CAPÍTULO QUE NÃO ESCREVI

Percival Puggina


Quando escrevi “Cuba, a tragédia de utopia”, encerrei o livro com a plena consciência de que faltava um capítulo e que ele me seria cobrado pelos leitores. Refiro-me à especulação possível, naquele ano de 2004, sobre o que aconteceria em Cuba depois de Fidel. Ou sobre as conseqüências cubanas do eventual desaparecimento do líder. A decisão de não entrar no território inseguro das conjeturas deveu-se ao desejo de preservar o livro de um possível erro de avaliação. Afinal, a obra estava composta por certezas, dados, fatos, observações e testemunhos pessoais.

A história, contudo, tratou de escrever suas próprias linhas, ainda antes do que se supunha. Primeiro a doença de Fidel, depois a dinástica sucessão pelo mano Raúl, e agora a renúncia definitiva, que abre, de vez, o processo político em pauta. Pede-me o nosso O Tempo que especule. Especularei então, sob as menores responsabilidades de um texto de opinião, como fiz, aliás, nos meses que se seguiram ao lançamento do livro, em sucessivas entrevistas nas quais essa indagação esteve sempre presente.

Tenho fortes razões para manter a opinião expendida ao longo dos últimos quatro anos. Nada, em Cuba, indica um caminho diferente daquele que, aos tempos da União Soviética, era seguido nos processos de sucessão no comando político do Partido Comunista (PCUS). Ou seja, a nomenclatura se inclinará a manter seu poder, ainda que com negociações, ou mediante eventuais disputas internas. Mas a experiência de meio século deve ter ensinado aos membros do Comitê Central e de suas subsidiárias, a Assembléia Nacional e as Assembléias Provinciais, o quanto é proveitoso e prazeroso exercer o comando sobre um povo desarmado, sem sobressaltos nem questionamentos.

Motivos para que nada diferente aconteça? Ora, abandonar espontaneamente o poder, em pleno gozo da saúde física e mental, é um raro gesto de grandeza individual e um impraticável gesto de grandeza coletivo. Ademais, Cuba é uma ilha de onde só se sai passando pelos seguranças do aeroporto ou pelas inseguranças do oceano. O povo cubano é desarmado até os dentes. Por falta de oportunidades e de prática não existem políticos na Ilha. Menos ainda existem militares oposicionistas. Ser dissidente, em Cuba, faz muito mal à saúde pessoal e familiar. A economia cubana vai tão mal quanto sempre foi e, passados 49 anos, ninguém mais imagina como seja uma vida diferente daquilo.

A única coisa que pode provocar mudanças substantivas em Cuba seria um eventual ingresso de divisas, pela via do turismo, que desse origem a uma inevitável mudança no perfil social e econômico da população. Até agora isso tem sido obstado pelas muitas proibições que incidem sobre a população local (los ciudadanos de segunda), mantida sem acesso a bens de consumo, a informações do exterior e aos locais freqüentados pelos turistas. Enquanto isso não acontecer, tendo a crer que teremos, por lá, um pouco mais do mesmo.


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PENA? DE QUEM?

Percival Puggina


A que idéia, caro leitor, você associa a palavra “pena”? Pensa no revestimento das aves? Pluma? Coisa leve? Ou, quem sabe, a palavra lhe traz a imagem de comiseração, pesar, mágoa? Ou lhe aparece associada à escrita, ao desenho, às habilidades literárias, gráficas, manuais? Certamente, a acepção menos comum desse polivalente vocábulo é a de castigo, punição.

Talvez venha daí a imensa dificuldade que temos, no Brasil, de entender as condenações, as penas decorrentes de processos judiciais, pelo viés da inflição, do castigo proporcional ao dano causado. Certamente os outros conceitos atuam com maior intensidade no juízo dos que interferem no sistema: coisa leve para o legislador, comiseração para os advogados, e mero produto da caneta para o julgador.

Suponhamos um estuprador, sentenciado a seis anos de prisão. Até as mudanças introduzidas em 2007, ele cumpriria um aninho em regime fechado, outro em regime semi-aberto e o restante em liberdade. Por quê? Porque era o que dizia a lei e porque não temos estabelecimentos penais adequados a essas duas modalidades previstas. Assim, o semi-aberto significa, na prática, que o criminoso passa o dia na rua, recolhendo-se à cadeia para dormir, se quiser. A maioria não quer. E, no regime aberto, o sujeito vai embora com o “compromisso” de não sair de casa à noite. Tá bom? Com as mudanças de 2007, o prazo para a progressão de regime passou para 2/5 da pena, ou seja, no exemplo acima, avança de um ano para 2,4 anos. Pergunte à estuprada se, em sua opinião, lhe terá sido feita justiça.

Os jornais de hoje relatam o caso de duas mulheres violentadas no decurso do furto do veículo em que trafegavam. Imagine, leitor, os traumas e o horror que carregarão na memória pelo resto de suas vidas. Parece-lhe provável que esses bandidos sejam novatos na vida criminosa? Que já não tenham passagens pelas delegacias e presídios do Estado? O que estão fazendo na rua esses animais? Saiba: se forem presos, se o processo transcorrer com perfeição e não propiciar a menor brecha à ação dos advogados de defesa, os estupradores voltarão às ruas depois de escassos 28 meses. Agora, vá dormir tranqüilo porque, se tudo der certo, essa é a justiça que será feita. E que se declarará satisfeita.

Não estou exagerando. Bem ao contrário, estou contido pelos limites de toques deste texto e pelos que a civilidade impõe à palavra escrita e impressa. Os mesmos jornais de hoje, por exemplo, informam que o tal Urso, investigado no crime da corretora de seguros, era foragido do regime semi-aberto... E assim vamos nós, com semi-abertos, semi-condenações, semi-justiça e insegurança total.

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sábado, 9 de fevereiro de 2008

MENSAGEM AO PRESIDENTE LULA

Geraldo Almendra

26/janeiro/2008


"O comunismo é a corrupção de um sonho de Justiça." (Adlai Stevenson)


Senhor presidente,


Começo essa mensagem dizendo o que penso do senhor. É um direito individual garantido pela Constituição do meu país, que ainda não é um Estado Comunista totalmente dominado pelo stalinismo petista, conforme seu profundo desejo.


De uma forma objetiva acho o senhor uma absurda fraude como político e ser humano, e o pior estelionatário da política que a história do país há de registrar.
O senhor é uma grotesca metamorfose ambulante, que não tem formação, patriotismo, princípios, nem ideais, a não ser a luta pelo poder ditatorial e pela sistemática manipulação da ignorância dos eleitores para garantir a sua permanência no controle da sociedade.


Sua luta como político se resume a uma sede de poder para dominar o país, nos transformando reféns da burguesia petista, com a cumplicidade de suas "gangs dos quarentas" e de todos os canalhas de ocasião, que colocam seus interesses patrimonialistas acima da educação, do patriotismo, da cultura, da dignidade, da honra, da honestidade, da ética ou da moral.


O poder público, senhor presidente, sob seu comando, virou um inimigo dos que teimam em trabalhar com honestidade e estudar com esforço próprio para crescer na pirâmide social.


O aliciamento, o suborno material, a covarde manipulação da ignorância das massas e do imbecil coletivo, são suas marcas registradas, senhor presidente. Ser vagabundo, corrupto e prevaricador viraram valores determinantes para esta nova sociedade petista que o senhor está construindo.


O senhor representa, na minha visão, senhor presidente, o que de pior já foi produzido em matéria de político prostituído que está plantando as sementes para a destruição da democracia e das liberdades individuais no meu país.


Seu sucesso como político, senhor presidente, está sendo possível pelo fato de nossa sociedade ter sido, criminosamente, levada à falência cultural e educacional por desgovernos civis contaminados pela presença de corporativistas-corruptos e canalhas da política prostituída, que afundaram o país no mar da degradação de valores morais, familiares e éticos.

Nos últimos cinco anos, senhor presidente, tenho gasto uma grande parte do meu tempo escrevendo o que penso dos seus atos de desgoverno, que está sendo apoiado por uma hedionda mutação do stalinismo – o petismo – e pelo mais escroto parlamento que se poderia imaginar poder existir.


Tenho presenciado como cidadão e contribuinte, o funcionamento do seu balcão de compra e venda de alianças com todos aqueles que aceitam serem cooptados por dinheiro, assistencialismo, poder, status, sinecuras e mordomias, independente de formação e posição social – ignorantes, incompetentes, políticos, servidores públicos, meliantes, artistas, jornalistas, empresários, estudantes, professores, mestres e doutores.


Percebo, também, senhor presidente, que tudo está sendo feito com a covarde e silenciosa cumplicidade da Igreja Católica, e com a cumplicidade explícita de outras igrejas; usam e abusam da ignorância da sociedade na cobrança dos seus dízimos – para fazer fortunas, mandar dinheiro para contas no exterior, e construir mansões – e manter suas pobres ovelhas caladas diante da destruição do futuro de seus filhos e de suas famílias.


Todos estão sendo convencidos a lhe dar apoio, para que o senhor consiga implantar no país o domínio de um Estado Comunista de Direito, comandado por uma burguesia formada no submundo da corrupção e do mais sórdido corporativismo, que já provocaram o apodrecimento moral e ético dos podres poderes da República.


Nossas Forças Armadas, senhor presidente, estão sendo colocadas em estado de inoperância, sucateamento, humilhação e desarticulação diante de nossa perda de soberania, risco crescente de invasão das forças comunistas de países vizinhos, falência da segurança pública, e da flagrante destruição da Amazônia e de nossas riquezas naturais.


Nosso Poder Judiciário está arcaico e corrompido pelo corporativismo sórdido, praticando duas justiças: uma para os ricos e poderosos, outra para os excluídos e para os que não pertencem aos grupos que apóiam o desgoverno petista e seus cúmplices.


A Justiça, senhor presidente, se perdeu no submundo dos artifícios imorais que exploram as "brechas" dos códigos legais para proteger de todas as formas as "gangs dos quarentas".


Nosso Parlamento virou uma casa de tolerância da política prostituída que consegue envergonhar até os prostitutos e as prostitutas de "profissão".


O Poder Executivo, sob seu comando, senhor presidente, já domina com folga os outros podres poderes da República, graças ao silêncio e a cumplicidade dos Tribunais Superiores, dos comandos das forças policiais federais do país, e dos comandantes das Forças Armadas.


Contudo, reconheço que o pior do que está acontecendo com o meu país não é o senhor ser esta grotesca fraude como político e como ser humano.

O pior é vivermos em uma sociedade hipócrita e covarde, que está permitindo que o senhor faça do país o quintal de suas doentias ambições de poder e patrimonialismo, que estão transformando, definitivamente, o poder público no paraíso da corrupção, da prostituição da política, do corporativismo sórdido e da prevaricação.


Senhor presidente. Confesso que estou cansado de escrever e não presenciar nenhum movimento relevante no país para destituí-lo do poder, que foi obtido através do maior estelionato eleitoral de nossa história.


Depois do início do julgamento da "gang dos quarenta", não suporto mais acompanhar tamanha falência de nossa Justiça e a falta de protesto explícito de uma sociedade tão covarde.


Estou cansado de ver os canalhas circulando pelas ruas com seus sorrisos hipócritas sem serem incomodados pelos palhaços e imbecis dos contribuintes.


Estou cansado da ignorância deste povo, cansado de ver uma classe média deixar-se empobrecer sem reação, cansado da covardia da sociedade esclarecida, cansado do corporativismo público-privado que se vendeu à corrupção e ao petismo stalinista, cansando de uma convivência virtual de gente que protesta, mas não consegue se organizar para se apresentar nas ruas e lutar pelo nosso país. Somos uma sociedade apática dominada por ignorantes, corruptos, prevaricadores, hipócritas e covardes.

Senhor presidente, perdi a motivação para escrever e protestar no vazio da degeneração moral e ética de nossa sociedade.


Voltarei à luta apenas se alguém estiver disposto a derramar seu sangue para livrar minha pátria das mãos dos canalhas que estão permitindo que se transforme o país em um Estado Comunista de Direito.


Aos meus amigos de luta virtual, senhor presidente, peço desculpas, mas estamos nadando para morrer na praia do comunismo petista. A vitória está sendo sua, senhor presidente.


Senhor presidente, vou apenas dedicar-me aos meus estudos acadêmicos e ao ensino, e continuar adquirindo a formação que um dia, depois do caos moral e ético que o senhor está provocando no país, vai me ser útil, para lutar nas ruas e presenciar seu alinhamento junto com todos os seus cúmplices no paredão da vergonha. Vou, também, escrever um livro cujo título já foi escolhido: O Retirante Pinocchio, com uma descrição histórica de sua fraude como político e ser humano.
Que a ira de Deus se transforme em espadas que cairão sobre sua cabeça, senhor presidente, e de todos os seus cúmplices da destruição do meu país.


"Adeus" senhor presidente, minhas palavras escritas estão indo embora. Não nos encontramos no outro mundo, pois não irei para o inferno.

Nesta dimensão talvez nos encontremos depois do caos, se o senhor estiver vivo até lá, e eu também.


Espero que estejamos senhor presidente, pois quero lhe ver pagando, da forma mais dura possível, pelos seus crimes de lesa-pátria que estão destruindo meu país e o futuro dos meus filhos e de suas famílias.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

O Fim da Metamorfose

Por Luís Mauro Ferreira Gomes
Coronel-Aviador Reformado

Em 16 de dezembro de 2007

Temos, ainda, viva, na memória, a decisão imprudente e desastrosa da Oposição de tirar Severino Cavalcante da Presidência da Câmara dos Deputados, sem ter a certeza de poder eleger-lhe o sucessor, o que colocou aquele cargo no colo de Aldo Rebelo, e ajudou a salvar o Governo da crise em que se havia metido, por falta de caráter de seus próprios membros e de filiados aos partidos que o apóiam.

Desta vez, porém, ela agiu com rara competência em todo o processo que culminou na sessão de julgamento da PEC que prorrogaria a CPMF

Diante da derrota iminente, o Presidente ainda “quis salvar o doente na hora do enterro”, como muito bem disse o Professor de Ética e Filosofia da Unicamp, Roberto Romano (O Globo, 14/12/2007, 2ª edição, página 9).

Conforme era de se esperar, fracassou.

– As mentiras do Governo

Incapazes de lidar com a perda, os integrantes do Governo, muitos dos quais foram terrorista armados ou simpatizantes destes no passado, agora, dedicam-se à prática do terrorismo verbal.

Acusam a Oposição de cortar quarenta bilhões de reais do Orçamento da União. Como se poderiam cortar esses recursos, se, simplesmente, não existiam?! Por imperativo constitucional, a CPMF termina no dia 31 de dezembro próximo. Os governistas é que pretendiam modificar a Constituição, para angariar mais fundos. Se contaram, como diz a sabedoria popular, “com o ovo antes de ser posto”, mais uma vez, foram eles os irresponsáveis.

E, ao contrário do que propalam, a destinação do tributo não seria a Saúde ou os programas sociais, senão financiar os seus projetos de perpetuação no poder, por meio de um golpe de Estado pela via da reeleição indefinida.

Somente um ingênuo não perceberia que o desespero com que o Presidente e os seus defenderam a aprovação dessa PEC reside em que a CPMF os ajudaria a tirar o passaporte para o terceiro mandato. Boa parte dos quarenta bilhões (dizem que eram muitos mais) seria desviada para o caixa partidário, e o restante serviria para comprar o voto dos eleitores carentes – por meio de programas assistencialistas – e a consciência de congressistas corruptos – mediante a liberação de emendas parlamentares, a distribuição de cargos, ou mesmo, o pagamento de mensalões. Esse foi sempre o “modus operandi” em situações semelhantes anteriores

Dizem que “a derrota não foi do Governo”, que “a vitória da Oposição foi contra o povo”. A Oposição fez o que deveria. Desde quando rejeitar emenda constitucional lesiva aos interesses da sociedade é derrotar o povo? Somente na visão desse Governo tão incompetente quanto arrogante, maniqueísta, excludente e sectário, que confunde os seus interesses com os dos sofridos brasileiros, cada vez mais, massacrados pelos agentes governamentais.

Também não são os sonegadores os únicos vitoriosos, como gritam as vozes oficiais. Estes sempre estiveram a salvo, desde que fossem partidários do Governo ou contribuíssem com “recursos não-contabilizados” para o caixa dos partidos aliados. Se assim não fosse, os desvios de dinheiro público feitos por intermédio do Banco Rural teriam sido descobertos antes, e não teriam ficado impunes, até agora. A cobrança da CPMF estava em toda a sua plenitude naquela época, e a Delegacia da Receita Federal, como o Presidente da República, nada viu, nada fez.

Outro recurso usado para impor à Nação as medidas de interesse do Governo é a manipulação das pesquisas de opinião. Como elas já estão muito inflacionadas, não seria possível, simplesmente, aumentar os índices de aceitação. Caso o fizessem, a estas alturas, já teriam elevado a aprovação dos eleitores a algumas centenas por cento. Vejamos, então, como é feita a manobra. Quando os estrategistas governamentais prevêem que precisarão alegar o crescimento da popularidade do Presidente, um pouco antes, anunciam pequena queda, para, nas vésperas do momento crítico, retornarem ao patamar anterior. Assim, podem alardear o fato como crescimento, e usá-lo em defesa dos seus objetivos. Foi o que aconteceu agora, mais uma vez. Segundo pesquisa do IBOPE liberada recentemente, em junho, a avaliação do Governo como ótimo ou bom estava em 50%, em setembro, “caiu” para 48% e, agora, em dezembro, “subiu” para 51%. A imprensa divulgou o “crescimento” com grande alarido, e não faltou quem, referindo-se à defesa da prorrogação da CPMF, ridiculamente, perguntasse aos brados: “Como pode estar errado o Presidente, se a sua popularidade não pára de crescer?”. Ora, mesmo que os números fossem verdadeiros, no que não cremos, as variações estão, virtualmente, dentro da faixa de erro da pesquisa, indicando, apenas, estabilidade. Por que será que ninguém diz isso?

Mas a torpeza não termina aí. Cinicamente, procuram intrigar os diversos segmentos da sociedade com a Oposição, a ela transferindo a culpa pelos seus próprios desmandos, incompetências e ações hostis. Mentem descaradamente, espalhando que o corte da CPMF promoverá o caos no sistema de Saúde e impedirá o aumento dos Funcionários Públicos e dos Militares.

Nada mais falso. Nunca houve intenção de investir mais em saúde, caso contrário, mais dinheiro teria sido canalizado para esse setor, durante todos esses anos em que a CPMF esteve disponível, e os poucos recursos orçamentários não teriam sido, sistematicamente, contingenciados, levando o sistema ao estado de inoperância em que se encontra.

Sobre a referência a aumentos salariais dos Funcionários Públicos, trata-se de um grosseiro desrespeito a esses trabalhadores. Aumento, há décadas, essa categoria não recebe. Depois de anos sem qualquer atualização, os reajustes, sempre ridículos e insuficientes para repor as últimas perdas, somente saíram nas proximidades de eleições. Parece que esse Governo deletério já se esqueceu de foi ele mesmo que deu a seus Funcionários 0,01% de reajuste, meramente para cumprir a obrigação formal de fazê-lo (um escárnio imperdoável, que somente poderia vir de quem veio). Mas as vítimas, essas sim, lembram-se disso perfeitamente.

Quanto a nós militares, sabemos, muito bem, quem são os responsáveis por todas as nossas mazelas e quem são os que estão infelicitando a Pátria que juramos defender. É inútil, pois, tentar enganar-nos.

– Como se financia a ditadura lulista

As fontes de financiamento da subversão parecem ser inesgotáveis. A CPMF seria, apenas, uma gota d’água no oceano que abastece o Governo. O golpe de Estado em gestação para perpetuar a ditadura lulista conta, ainda, além do dinheiro público desviado pelos meios tradicionais, com os recursos da DRU, que a Oposição não conseguiu ou não quis estancar, e com a injeção dos petrodólares bolivarianos do caudilho venezuelano, que, cada vez com maior desenvoltura, interfere na nossa política interna, com a cumplicidade do Presidente da República e do Ministério das Relações Exteriores, ademais de vários outros integrantes do Poder Executivo. Se o bom senso prevalecer entre os oposicionistas, eles denunciarão energicamente os avanços chavistas e procurarão derrubar a DRU em segundo turno. É uma questão de sobrevivência.

– Quem ganhou e quem perdeu

Em linhas gerais, foi o Brasil que mais ganhou com o fim da CPMF, e o grande derrotado foi o próprio Presidente Luiz Inácio da Silva.

Mas uma verdade que não se pode negar é que quem também se saiu muito mal de todo esse processo foram alguns políticos que vinham conseguindo enganar os eleitores, apresentando-se como pessoas sérias, confiáveis e de grande respeitabilidade. Uma observação um pouco mais atenta lhes teria, porém, revelado a verdadeira face oculta.

O Senador Pedro Simon, que propôs o adiamento da sessão para que o Governo tivesse mais tempo para cooptar Senadores, apresentava-se tão desconfortável e soava tão artificial, que dava pena, na tentativa de “explicar a inexplicabilidade” da mudança do voto que anunciara publica e ostensivamente, poucos dias antes, para apoiar aqueles que, por duas vezes, o substituíram na Comissão de Justiça, com o fim de alterar a correlação de forças naquele colegiado. Um homem sério não mereceria prestar-se a esse papel. Mas o que esperar de quem elogia Che Guevara e condena uma reportagem em que se criticava o guerrilheiro terrorista?

O Senador Jefferson Péres, que aparentava estar inteiramente perdido e fora da realidade, quando procurava justificar voto favorável à CPMF, sob a alegação de que o Ministro Guido Mantega havia prometido redução gradual da alíquota de 0,38%, a partir de 2008, e adoção de um mecanismo para limitar os gastos correntes do Governo (sem mencionar valores ou dizer que mecanismo). Muito conveniente essa ingenuidade de quem parece não ter percebido que, como a experiência sugere, a palavra do Ministro não vale mais do que um tostão furado. Não é de se estranhar. O Senador já nos tinha dado prova do seu grande mimetismo político em palestra realizada no Clube de Aeronáutica, em 17 de maio deste ano.

O Senador Cristóvão Buarque, outro “ingênuo”, que parecia querer mostrar uma inocência que não tem, ao fingir acreditar, mais uma vez, naquele que o demitiu pelos jornais. Não obstante, ele já apoiara o seu demissor no segundo turno das eleições presidenciais, em troca de “promessas” (também não cumpridas) relacionadas com a Educação, paradoxalmente, mesmo depois das críticas e denúncias arrasadoras que fizera no primeiro turno.

O prefeito José Serra (que, tudo indica, participou do conchavo de que resultou a carta presidencial e a atuação patética do Senador Pedro Simon) e o Governador Aécio Neves, que, juntamente com a Governadora Yeda Crusius, pressionaram os seus Senadores para que traíssem os compromissos assumidos e apoiassem o Governo em troca das promessas de que teriam mais recursos em seus Estados, para embalar os respectivos projetos políticos pessoais, mesmo tendo o seu partido, consoante a vontade da maior parte da sociedade brasileira, fechado questão contra a CPMF. Todavia, parece que os dois primeiros entendem muito bem de traição, pois, durante a última campanha eleitoral, era evidente o desconforto com que, tímida e tardiamente, “apoiaram” o seu correligionário, enquanto o eleitor atento via, claramente, que investiam na reeleição do adversário, cada um pensando, tão somente, em candidatar-se quatro anos depois.

Os grandes vitoriosos desse embate foram, mesmo, os bravos Senadores da Oposição e aqueles que a eles aderiram, assim como os políticos que os apoiaram. Todos resistiram aos mais violentos tipos de pressão, aí incluídas as sistemáticas tentativas de corrupção e de chantagem (para o Governo, negociar é, simplesmente, ameaçar ou comprar políticos), além dos apelos emocionais que sempre acontecem nesses casos. Cometerão o suicídio, contudo, se renunciarem ao aproveitamento do êxito para, timidamente, tratarem de compor-se com o Governo, esquecidos de seus compromissos com os eleitores, para lhe dar, amanhã, o que lhe tiraram ontem, em troca de “seja lá o que for”.

– Benditas bengaladas

Às vésperas do julgamento do então Deputado José Dirceu, o Escritor Yves Hublet (*), encarnando a ira nacional, desferiu-lhe emblemáticas bengaladas. Isso foi suficiente para mudar o ânimo daqueles que fariam o julgamento político, levando à condenação do réu e poupando-nos do espetáculo grotesco em que se transformaram os outros processos.

A sessão que decidiu o destino da CPMF também foi precedida por uma bengalada metafórica de grande valor, a derrota do ditador venezuelano no referendo que convocara para decidir, entre outros absurdos, a sua reeleição ilimitada. Essa vitória mostrou que, mesmo em situações extremamente desfavoráveis, os oposicionistas podem reagir contra as ditaduras que procuram instalar-se em seus países, utilizando-se dos mais variados disfarces de democracia para enganar os tolos.

A oposição de lá reagiu, como pôde, aos avanços totalitários do tiranete local. O passo foi pequeno, mas de extraordinária importância simbólica.

A nossa, sequer, parece ter-se dado conta, claramente, da ditadura que se agiganta e nos sufoca, mas também já ensaiou um passinho, ainda que muito menor.

– O princípio do fim da metamorfose

Em meio a tudo isso, agride-nos todos os dias a caricatura de um Presidente da República que se diz uma metamorfose ambulante. E por que não uma metamorfose volante, já que não sai do Aerolula? Pessoalmente, achamos que metamorfose falante lhe fica melhor, uma vez que Sua Excelência não deixa de dizer bobagens. Mas pouco importa se é ambulante, volante ou falante. O que o Brasil menos precisa neste momento é de uma metamorfose presidencial.

Até quando nós nos sujeitaremos a conviver com essa tragédia evitável?

Apesar da apatia generalizada que tomou conta dos brasileiros, a situação começa a reverter-se.

Dissemos, acima, que dois pequenos passos foram dados, um aqui e outro na Venezuela.

Que tenham sido os primeiros da marcha que varrerá, para sempre, a epidemia de ditaduras de esquerdas do continente sul-americano!




(*) Nota

Yves Hublet escreveu, em comemoração ao centenário do primeiro vôo do 14 Bis, “O Dia em que o Homem Voou”, publicado pela Editora Record, em 4 de abril de 2006. Na primeira parte da obra, o autor, satiriza, por meio de ficção fantástica cheia de fina ironia, a idéia de que os Irmãos Wright foram os primeiros a voar com aeronave mais pesada do que o ar. Em uma segunda parte, fundamenta sua argumentação com pesquisa muito bem documentada e desenvolvida. O articulista recomenda, com empenho, a leitura desse trabalho, que tem a forma de uma fábula infantil, mas que, como O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, agrada ao público de todas as idades.